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Na guerra de minas, Brasil e Suécia estão navegando no mesmo canal

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No 1º Congresso Internacional de Contramedidas de Minagem, realizado no Rio de Janeiro, participação da Marinha Sueca e da Saab foi expressiva, e palestras de oficiais da MB mostraram preferência por navios e sistemas suecos para substituir nossos atuais navios varredores

Por Fernando “Nunão” De Martini

Na semana passada, entre os dias 16 e 18 de outubro de 2017, a Escola de Guerra Naval no Rio de Janeiro recebeu o 1º Congresso Internacional de Contramedidas de Minagem, realizado pelo Comando do 2º Distrito Naval (Salvador-BA), ao qual estão subordinados a Força de Minagem e Varredura (ForMinVar) e o Grupo de Avaliação e Adestramento de Guerra de Minas (GAAGueM) – este último o organizador do evento. O Poder Naval esteve presente ao congresso, e traz aqui uma pequena série de matérias para passar aos leitores a experiência de participar desse encontro.

Em anos anteriores, o 2º Distrito Naval (2º DN) já havia realizado o evento no formato Simpósio de Guerra de Minas, mas para esta edição de 2017 o encontro cresceu em sua abrangência, passando a ser internacional e a incorporar, também, conhecimentos e experiências em minagem e contramedidas de minagem terrestre, com experiências do Corpo de Fuzileiros Navais, do Exército, da Força Aérea e de forças policiais estaduais.

Dentro dessa abrangência maior, evidenciou-se a presença sueca no congresso, com destaque para palestrantes da marinha daquele país e para apresentações do grupo de defesa Saab. Entre as 34 palestras realizadas nos dias 17 e 18 (às quais se somam a abertura e o encerramento do evento, além de coquetel realizado na noite de 16 de outubro), as que se relacionavam especificamente à Guerra de Minas e Contramedidas de Minagem no mar, assim como embarcações, equipamentos, serviços, treinamentos e sistemas correlatos, somaram 21 palestras.

Destas, 8 apresentações (cerca de 40% desse universo de 21) abordaram diretamente os equipamentos suecos, sendo três da Saab, três da Marinha Sueca e duas de oficiais da Marinha do Brasil, os quais evidenciaram a preferência, pela MB, dos navios (classe “Koster”, vista na imagem de abertura da matéria) e sistemas suecos para a necessária e há muito postergada renovação do material da ForMinVar, indicando que a oferta sueca é bastante competitiva e estaria muito bem posicionada.

Nesta primeira matéria, mostraremos um resumo do conteúdo das duas apresentações de oficiais da MB ligados às iniciativas de reequipamento da ForMinVar (tanto em navios, sistemas e no apoio de base aos mesmos) e que mostraram claramente a posição favorável à proposta sueca para essa renovação, assim como do conteúdo do discurso de abertura do comandante do 2º Distrito Naval, vice-almirante (VA) Almir Garnier Santos e entrevista que este concedeu à imprensa especializada em Defesa. Na próxima, mostraremos as palestras de oficiais da Marinha Sueca e representantes da Saab. Em matérias subsequentes falaremos de outros fornecedores internacionais presentes ao evento (caso da Thales, Abeking & Rasmussen, Polyamp, JFD), organizações da Marinha (IPqM, CASNAV, CHM, CIAMA, GRUMEC, CFN) de outras forças e demais temas abordados no congresso.

Discurso de abertura e entrevista do vice-almirante Garnier: os esforços para manter em operação até 2024 os atuais navios-varredores

Ao abrir o evento, o vice-almirante Almir Garnier Santos, comandante do 2º Distrito Naval (organização militar líder na área de Guerra de Minas da MB), ressaltou o fato dele agora ser um congresso internacional (e por isso receber o “1º” em seu nome, dado que os eventos predecessores eram simpósios de abrangência menor). Também destacou que, além de trazer mais fortemente a experiência e as informações de operadores e fornecedores internacionais da área de contramedidas de minagem em âmbito naval, o evento agora denominado como congresso passou a incluir forças terrestres.

Para Garnier, o momento é propício para a discussão do tema, pois o ciclo operativo planejado originariamente para os atuais navios varredores da ForMinVar já terminou, e é mais do que hora de renovar os meios dessa força. A Marinha do Brasil, segundo o vice-almirante, é respeitada internacionalmente por mostrar boa capacidade em mais de uma área, como é o caso da Aviação Embarcada (asas rotativas em especial) , Força de Submarinos, de realização de Operações Anfíbias, entre outras, e a ForMinVar é uma das áreas em que essa capacitação não pode ser perdida. Garnier não deixou de fazer referência às dificuldades orçamentárias e outras pelas quais passa a Marinha, mas que a força trabalha para não perder suas capacidades conquistadas e para se reequipar para o futuro.

Entrevista – E foi justamente sobre essa realidade presente, e de futuro mais próximo, que o Poder Naval conversou com o vice-almirante em entrevista concedida naquele primeiro dia, já no período do intervalo de café da tarde, e depois de várias palestras sobre novos equipamentos e doutrinas em vista. Ponderando que as perspectivas futuras dependiam do que se estava efetivamente fazendo agora para realizá-las, fizemos a primeira pergunta da imprensa especializada a Garnier, sobre o que o 2º DN estava fazendo para garantir essa transição, no presente e no curto prazo.

Garnier respondeu que os trabalhos na Base Naval de Aratu e na ForMinVar atualmente visam garantir a operação de quatro navios-varredores da classe “Aratu” para que se mantenham em operação até 2024, e assim não perder a doutrina adquirida em varredura, ao longo de quatro décadas de operação desses navios. Dois dos seis navios originais da classe precisaram ser desativados durante gestão anterior do  2º DN, mas os esforços de recuperação dos quatro restantes permitiram disponibilizar três deles para operações, com um quarto passando por manutenção e recuperação.

A meta de manter esses meios operando até 2024 leva em conta que seus substitutos sejam escolhidos, no máximo, até 2020, e para isso o reequipamento da ForMinVar precisa entrar na pauta de prioridades da Marinha. Com a ressalva de não encontrar palavra mais apropriada, Garnier afirmou ao Poder Naval que vem “pressionando” seus superiores frequentemente para viabilizar esses prazos e formas de financiamento para as aquisições de novos navios de contramedidas de minagem.

Enquanto isso, empresas da área da Base Naval de Aratu tem sido contratadas para apoiar a manutenção dos quatro varredores restantes, e os bons resultados desse esforço, com flexibilidade, permitiram a disponibilização de três deles atualmente, com um quarto em breve.

Navios-patrulha – Aproveitamos para também perguntar sobre os meios do Grupamento de Patrulha Naval do Leste, também subordinado ao 2ºDN, e suas perspectivas para presente e curto prazo. Nessa área há mais tranquilidade, segundo o vice-almirante, pois a capacidade dos meios (dois navios da classe “Grajaú” e um navio remanescente da classe “Imperial Marinheiro”) vem se mantendo adequada às exigências da área patrulhada, com ocorrências bem menores (normalmente relacionadas a navios pesqueiros) do que em outros distritos navais.

A necessidade de navios caça-minas e a classe Koster sueca, em palestra do comandante do GAAGueM, organizador do congresso

O capitão de fragata Frederico Albuquerque, comandante do Grupo de Avaliação e Adestramento de Guerra de Minas (GAAGueM), além de organizar o evento realizou a primeira palestra do congresso, que deu o tom das necessidades de renovação dos meios da ForMinVar. Com o título “As Contramedidas de Minagem em Portos, perspectivas e a necessidade de aquisição de Caça-minas”, a apresentação iniciou por uma evolução temporal das contramedidas de minagem.

É importante aqui situar o leitor nas diferenças (que, como veremos, têm raiz na evolução histórica das contramedidas de minagem) entre navios-varredores e navios caça-minas. Os varredores são utilizados para “limpar” portos e áreas em que se sabe ou se tem suspeita de minagem por um inimigo, abrindo assim um canal de navegação (que é sinalizado) para as forças amigas. Para isso dispõem em geral de equipamentos rebocados de varredura que são lançados na água para cortar cabos de minas de contato e fundeio e para provocar a detonação de minas acústicas e magnéticas. Os navios caça-minas são mais sofisticados, dispondo de sensores (normalmente sonares) para rastrear, identificar e rastrear minas.

Evolução histórica – Até a Segunda Guerra Mundial, a principal atividade realizada era a de varredura, principalmente mecânica, com paravanas – longos dispositivos estendidos nos bordos dos navios para localizar as minas (a grande maioria de contato, ainda que houvesse o desenvolvimento das minas de fundo e de fundeio por influência). Após a guerra, com a evolução do sonar, algumas potências navais intuiram que a varredura estava se tornando inútil, pois os sonares mostrariam todo o fundo, e investiram mais em caça-minas.

Ainda assim, várias marinhas, incluindo a Marinha do Brasil, insistiam na necessidade de navios-varredores, o que mostrou-se correto no longo prazo (ainda que a falta de capacidade de caçar minas se sentisse), e adquiriu nos anos 1970 navios da classe “Aratu”, modernos à época, tornando-se capacitada a realizar varredura mecânica dupla (onde cabos de aço, tesouras e flutuantes rebocados cortam os cabos das minas de fundeio) e varredura combinada de influência (que provoca a explosão de minas que funcionam por assinatura acústica e/ou magnética), com martelos acústicos mecânicos e cauda magnética.

A partir dos anos 1990, quando se percebeu os limites da tecnologia de sonares de então para a crescente sofisticação das minas, a varredura voltou a ser valorizada, e buscou-se novas abordagens para os caça-minas, com grande desenvolvimento de veículos subaquáticos transportados pelos navios, de operação remota ou autônoma. As funções de caça e de varredura ainda eram, porém, tarefas para navios diferentes, o que hoje se busca combinar num único tipo de embarcação, agora chamada de navio de contramedidas de minagem. Este novo tipo de navio, incluindo a capacidade de caça-minas e de varredura de influência com drones, deve trazer novas doutrinas de retirada do homem, o quanto possível, da área do campo minado.

Minagem e contramedidas de minagem hoje – A guerra de minas tem sua principal justificativa, ainda hoje, pelo fato de que as minas são armas muito baratas (em que pese sua contínua sofisticação em formas, revestimentos inteligentes, sensores e capacidade de ocultação) em relação aos danos que podem causar. E vale lembrar que a minagem não é uma atividade unicamente ofensiva (realizada no litoral ou áreas de trânsito de uma força adversária), mas defensiva, em que acessos aos próprios portos de um país ou regiões de conflitos podem ser negados por meio de campos minados.

Para combater as minas, boa parte do trabalho deve ser de inteligência: coleta de dados, mapeamento do solo, vigilância, notificações, seguidas de interdições para controle de áreas de entrada e saída, avaliação de movimentos fora do comum. Para apoio desse trabalho de inteligência, o comandante Frederico mencionou nesse momento o SAAMP (Sistema de Aquisição de dados Acústimo, Magnético e de Pressão), desenvolvido pelo IPqM (Instituto de Pesquisas da Marinha), que será abordado em outra matéria.  Se após todas essas etapas preventivas e de inteligência tiver ocorrido a minagem e esta for constatada, é necessário partir para as contramedidas, que atualmente na MB são feitas por varreduras com os meios ainda disponíveis (os navios-varredores da classe “Aratu”). Mas o objetivo é que estes sejam substituídos por meios mais modernos, capazes também de caçar minas.

A solução na forma da classe “Koster”- Nessa parte da palestra Frederico abordou especificamente a classe “Koster” (MCMV 47), que além de caça-minas é também um varredor (realiza varredura mecânica, magnética e acústica), ou seja, é considerado um navio de contramedidas de minagem. O navio foi oferecido pela Saab e combinaria com a visão de futuro da Marinha para essa atividade, que se insere no âmbito maior do chamado BIGM – Bloco de Informações de Guerra de Minas.

O navio em si e a sua obtenção é a ponta do iceberg de uma nova doutrina, onde se sairá da varredura atual para a Guerra de Minas de forma mais ampla. Abordaremos detalhes sobre a classe “Koster”, ou MCMV 47 (o número deve-se ao comprimento de 47,5m) na próxima matéria, que trará resumos das apresentações feitas por oficiais da Marinha Sueca e do construtor desses navios, a Saab (em sua divisão naval, a Kockums).

A necessidade desses meios foi realçada com o fato de se estar construindo em Itaguaí (RJ) uma nova base e estaleiro de submarinos (na qual poderá no futuro ser construído e operado um submarino de propulsão nuclear) e foi apresentado um mapa do canal a ser mantido livre de qualquer ameaça de minas na região da base.

Finalizando sua apresentação e respondendo a questões do público, o comandante do Grupo de Avaliação e Adestramento de Guerra de Minas (GAAGueM) abordou também o presente, além dos passos a serem tomados no futuro próximo. No presente, é necessário manter a doutrina conquistada ao longo de décadas com os atuais navios-varredores, mas a visão de futuro é começar com esses mesmos navios a ganhar doutrina para a Guerra de Minas (caça-minas) de forma mais ampla, operando com ROV (Veículos Operados Remotamente) e desenvolver SUV (Sistemas não tripulados de Superfície).

O GAAGueM já realizou um estudo sobre os tipos de tecnologias necessárias, e constatou que elas já existem no Brasil, sendo o maior desafio o desenvolvimento de enlace de dados para essa atividade, o que está num estágio mais embrionário, mas já iniciado em Salvador.

O papel da Base Naval de Aratu na manutenção da ForMinVar e perspectivas futuras, caso se adquira a classe “Koster”

No segundo dia (18/10/2017) de palestras, foi realizada a apresentação do capitão de mar e guerra Marcus Vinicius de Castro Loureiro, comandante da Base Naval de Aratu (BNA), com o título “BNA e o apoio do complexo de magnetologia e logístico para a guerra de minas”.

Pouco depois de seu início, a apresentação já mostrava as imagens dos dois desafios que Aratu terá pela frente, um deles o futuro submarino nuclear (do qual falaremos adiante), e outro, ainda antes, a possível aquisição da classe sueca “Koster” da Saab Kockums para a substituição dos meios atuais da ForMinVar, que é apoiada pela base.

Hoje, as instalações da BNA têm plenas condições de apoiar tanto os atuais navios-varredores com as oficinas do Departamento Industrial (carpintaria/marcenaria, mecânica, caldeiraria, funilaria) e com o Sistema Elevador de Navios (SELENA) quanto meios da Esquadra com o dique seco Almirante Campbell de Barros, com 230 metros de comprimento, 30m de fundo e capacidade de docar navios de até 35.000 toneladas.

A diferença entre apoiar a classe Aratu e a Koster – O apoio logístico aos atuais navios-varredores é bem realizado, no geral, por serem navios de baixa complexidade e haver capacitação da mão de obra para reparos e recuperação do casco (madeira), dos radares e equipamentos de comunicação, máquinas auxiliares, geradores e serviços gerais – a questão mais crítica, ligada à própria idade dos navios, é que seus motores de propulsão (MCP), obsoletos, dependem de apoio realizado somente pela MTU alemã, à qual são encomendadas peças que têm alto custo de aquisição.

Já no caso de aquisição da classe “Koster”, os desafios estão na alta complexidade dos meios, com eletrônica e sistemas novos, cascos em GRP (Glass Reinforced Plastic – fibra de vidro reforçada), propulsão com hélices cicloidais, e necessidade de reparos de altíssima confiabilidade em itens de até menor complexidade como os guindastes acionados hidraulicamente (já que a falha num guindaste pode ocasionar a perda de um caríssimo drone submarino). Para atender a essa demanda, a mão de obra disponível na base e no mercado local não está qualificada.

Quanto ao casco em GRP, que reduz o peso do navio e sua assinatura magnética, com alta resistência a impactos, será necessário incrementar a atual oficina de carpintaria para realizar reparos e construções com esse tipo de material, o que implica em novas técnicas de laminação, paiol com isolamento de luz solar, infusão a vácuo de painéis, controle de ambiente e corte com jatos d`água. Seria um projeto mais audacioso, incrementando a BNA para a construção de navios em GRP, mas, no caso desses painéis não serem fabricados no país, seria necessário adquiri-los junto à Saab Kockums (como se faz com a compra de chapas de aço junto a siderúrgicas), o que permitiria adquirir uma variedade de painéis com diferentes propriedades e reduziria a necessidade de uma mesa de infusão a vácuo, segundo o comandante Castro Loureiro.

Ainda que os painéis sejam importados, será necessário investir em boa parte dos itens relacionados no parágrafo acima, e no treinamento da mão de obra. Em outras oficinas, será necessária uma maior capacitação para reparos no sistema de propulsão, engrenagem redutora (no mínimo de segundo escalão) e, quanto às estruturas, para trabalhos com aço inoxidável, titânio e outros metais não magnéticos. Sensores sofisticados e outros sistemas também demandarão capacidade de manutenção superior à atual (caso do Sonar Atlas 12M, sistemas de controle tático interdependentes, radar, degaussing, veículos do tipo ROV, AUV, entre outros) e a aquisição de uma câmara hiperbárica.

A boa posição da oferta sueca – Já foram realizadas visitas por parte da Saab Kockums, segundo Castro Loureiro, para avaliar a estrutura industrial existente e planejar novas instalações e aquisições. Como resultado dessas conversas, o comandante da BNA revelou que a oferta da Saab pra a classe “Koster” é muito boa e bem cotada dentro da Marinha.  Nesse caso, ele disse em sua palestra que corria o risco de dizer uma ”inconfidência”, revelando que, entre as propostas já vistas para a aquisição de novos navios de contramedidas de minagem, a proposta sueca era a melhor oferta, tanto nos aspectos técnicos, de valor total, prazos de financiamento, e também quanto ao pacote de transferência de tecnologia para a área industrial da base. Castro Loureiro, porém, não informou os valores envolvidos, mas toda a apresentação (assim como a que já mostramos, do comandante do GAAGueM e organizador do evento) deixou bem claro ao público presente esse favoritismo.

Entre outras considerações, foi alertado pelo comandante Castro Loureiro que o recebimento de novos navios de contramedidas de minagem, sem o devido apoio logístico, comprometeria rapidamente a capacidade dos mesmos, devido à integração e interdependência dos seus equipamentos e sistemas – não fazendo sentido operar os navios com restrições em alguma capacidade, justamente por essa interdependência. Assim, a maior parte dos recursos seria empregada no incremento das oficinas, equipamentos, ferramentas especiais, havendo também uma necessidade determinante de capacitação do pessoal.

Complexo de Magnetologia – Outro tema importante apresentado pelo comandante da BNA foi o da necessária modernização do Complexo de Magnetologia da base, único na América Latina (e um dos três do Hemisfério Sul), e/ou sua mudança de local. Isso se deve à futura construção do submarino nuclear brasileiro, que excederá em seu comprimento e raio de curva as capacidades da atual Estação de Medidas Magnéticas de Navios, composta por cinco raias magnéticas.

A estação, instalada no Forte São Lourenço (Itaparica) realiza a medição e compensação magnética (tratamento) de navios e submarinos, para controle de suas assinaturas magnéticas (o que tem relação direta com o tema da guerra de minas, já que as minas dotadas de espoletas magnéticas estão entre as maiores ameaças nessa arena). A ela se soma o Laboratório de Medidas Magnéticas, que realiza estudos de assessoria às necessidades da MB e desmagnetiza peças, desacelerando o processo de corrosão. Haverá uma necessidade de decisão entre mudar a estação atual de lugar (dentro da área atual), torná-la inclinada, e mudá-la para Itaguaí. Há variáveis a ponderar: na Baía de Todos os Santos (seja em Itaparica ou outro local), as mudanças e modernizações da raia dependeriam de nova licença ambiental, para incluir manobras de um submarino nuclear na região, enquanto que em Itaguaí essa licença já existe. Porém, um aspecto não menos importante é que a localização atual da raia foi definida, décadas atrás, levando em conta um aspecto fundamental: é uma região de pouca incidência de raios (no país onde mais ocorre raios no mundo). Equipamentos atuais poderiam ser aproveitados nos dois casos (sendo transportados para Itaguaí, no segundo caso), acrescentando-se novos sistemas de controle digitais para substituir os analógicos. Ainda sobre esse assunto, Castro Loureiro informou que a BNA apresentou sete projetos para a continuidade das atividades de medição e tratamento magnético pela MB.

O preço que a negligência cobra – Voltando ao tema da renovação dos meios de contramedidas de minagem e finalizando sua palestra, o comandante da BNA destacou o quanto a negligência com o tema pode custar para uma marinha – ou os riscos que esta corre – mencionando um dos temas recorrentes nos estudos realizados no local do congresso, a Escola de Guerra Naval: a Guerra das Malvinas / Falklands. No caso da força britânica, em 1982 ela estava muito diminuída, constituindo-se de navios varredores de pequeno porte, aptos apenas a operações costeiras (em geral no Canal da Mancha) e sem capacidade de operações longe da base ou de cruzar o oceano.

Assim, não foi possível para a Marinha Real Britânica enviá-los para o Atlântico Sul, quando estourou a guerra contra a Argentina, e foi preciso improvisar em poucas semanas a instalação de equipamentos de varreduras em navios de madeira civis de porte adequado atravessar o Atlântico. E mesmo essa força estava muito aquém das necessidades vislumbradas para a retomada das ilhas, e apenas o fato dos argentinos também terem negligenciado sua capacidade de minagem (dispunham de pouco mais de 20 minas e com elas ainda conseguiram fazer um campo minado) evitou que, no Estreito de São Carlos, grandes perdas ocorressem – foi destacado trecho do livro do almirante Sandy Woodward sobre o conflito, no qual fratatas Tipo 21 (classe “Amazon”) enfrentaram primeiro o possível campo minado para evitar a perda de navios transportando a força de desembarque, que vinham atrás (imagem a seguir):

Com essas palavras, terminamos esta primeira matéria sobre o evento. Na próxima, voltaremos ao assunto da classe “Koster” e da experiência sueca em contramedidas de minagem.

O colaborador do Poder Naval viajou ao evento a convite da Saab

Veja também:

25 COMMENTS

  1. Poxa, seria espetacular termos de 4 a 6 embarcações deste tipo e ainda modernizar a BNA, estou gostando muito destes suecos!!

    Daríamos um salto tecnológico tremendo. Seira como sair do Boeing 707 para o 787 direto em termos de tecnologia.

  2. Infelizmente não há seriedade na MB no planejamento da esquadra. Se houvesse, a renovação da força de desminagem estaria como destaque, junto ao término do prosub e patrulha – aviação e navios.

  3. Interessante o caminho que a coisa está tomando. Parece que a intenção é criar um núcleo para gerar e após isto, manter conhecimentos no estado da arte no tocante a missão. A SAAB acaba se mostrando novamente uma interessante alternativa para para as FFAA.
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    Agora, como o exemplificado em uma imagem no texto, o conceito MCM vem cada vez ficando mais e mais modular. Aí eu pergunto: Poderíamos pensar em um Navio Patrulha projetado para abranger estas missões, se aproveitando do fator modularidade?
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    Pergunto isso pq cada distrito tem suas necessidades por Navios Patrulha. Como estes navios em caso de combate não estariam na linha de frente, não seria interessante dotar alguns destes com capacidade de cumprir a missão (ou parte dela), para assegurar a reta guarda e a navegabilidade, ou a negação do uso de nossas águas?

  4. Bardini, não sei se seria viável, em custos de obtenção e manutenção, ter um navio-patrulha com as características que um navio de contramedidas de minagem precisa ter hoje em dia em suas características de assinatura acústica (ou seja, em sua propulsão, que no caso dos mais modernos usa hélices cicloidais) e magnética (cascos de sanduíche de GRP ou aço amagnetico, bem mais caro que o normal). A não ser que se abra mão dessas características. Teremos mais informações e outras soluções para mostrar nas próximas matérias. O caminho mais lógico parece ser combinar, ao invés de patrulha, tarefas ligadas à hidrografia.

  5. Era mais um questionamento, pq nunca parei para me aprofundar a respeito desse tipo de guerra naval.
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    Talvez você aborde nas próximas matérias os UUVs/ROVs etc e suas funções.
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    Acho que um grande questionamento é até aonde os ROVs serão explorados nessa função. Pq dependendo disso, o navio em si, poderia virar um mero coadjuvante. Ou não, rsrsrs…

  6. Fabio, enquanto estive no AMRJ, na última quinta e sexta, ele não chegou não. Mesmo porque o dique estava ainda se desocupando de um navio a serviço da Petrobras.
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    Mas troquei uma ideia com o Alte Regis e ele mandou te avisar que estará de porta batel aberto para receber o Maracanã, quando ele vier.

  7. Vejo muito perigozamente esta aproximação com a SAAB.
    Ter varios meios estratégicos do mesmo fornecedor? Não me parece sabío.
    Abraços

  8. Bardini, os ROVs e outros sistemas não tripulados estão na pauta das próximas matérias. E na próxima a questão do navio tripulado ser ou não coadjuvante é um dos temas abordados pelo pessoal da Marinha Sueca, debatendo sua experiência operacional com esses meios.

  9. Excelente matéria. estarei ansioso por novas informações. Classe Aratu ou Koster. Temos conhecimento adquirido para construção da Classse Aratu(problema motor- manutenção cara), Boas perspectivas para a classe koster, podem ser adquiridos?!, Porém não temos pessoal com qualificação em manter o meio. Esperar por mais informações. Grande abraço.

  10. Fala Renan.
    Perigoso é pagar o olho da cara e não ter nenhuma contraprestação para o país comprador.
    Dos grandes fornecedores de material militar, poucos realmente aceitam passar certo grau de conhecimento para quem está pagando. E a Suécia, por meio da gigante SAAB, é um desses poucos.

    Por mim, que a aproximação seja a cada dia maior e que, sendo o caso, até se convoque o ibrahimovic para ser nosso 9 na copa, caso a Suécia não seja classificada. Só não digo o mesmo dos sul coreanos, porque lá eles preferem o beisebol!

  11. o casco de madeira ainda eh utilizado para embarcações anti minas ???
    ou hj ja ha um aço “apropriado” para tal função ??

  12. wwolf22
    o casco de madeira ainda eh utilizado para embarcações anti minas ???
    ou hj ja ha um aço “apropriado” para tal função ??”

    .
    Sim, aço não magnetizável. Isso será tema para a terceira matéria dessa série.
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    Além desse tipo de aço, há o uso de cascos de sanduíche de GRP (compósito de fibra de vidro e plástico) em navios de contramedidas de minagem, como a classe Koster sueca mencionada no texto, e a classe Lerici italiana e suas derivadas pelo mundo afora.
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    Desconheço se hoje ainda há algum construtor que utilize madeira em navios do tipo.

  13. Felipe
    Kkkkkk
    O Ibra cadabra não pode pois seria covardia, poderia dar a taça sem jogar.
    Abraços.
    A falta de tecnologia que temos nos fara se aproximar de parceiros a curto prazo bons. Mas esta dependencia, sera a assinatura de escravidão por decadas
    Fui

  14. Também existe o MCMV 80, modular, furtivo, multi-missão (?) que a SAAB diz ser o “caça minas” de próxima geração, parece ser um projeto bastante interessante. Claro, não para o nosso bico nesse momento, mas o conceito merece atenção.

  15. Os suecos devem ter baixado bem o preço de uma hora para outra, pois o Comandante da MB em entrevista há apenas 2 meses atrás foi questionado sobre os navios -varredores desse país. Respondeu que eram muito caros.

  16. Manuel Flávio,
    Mas ele disse que todos os navios caça-minas são muito caros. Guardadas as devidas proporções, deve ser como no caso do FX-2, em que todos os concorrentes eram muito caros, sendo o sueco o menos caro entre eles.
    Também tem a questão dos navios suecos estarem encostados e sem perspectivas de serem vendidos. Junta com o financiamento camarada do banco sueco (2,39% a.a. no caso do FX-2) e a nacessidade premente da MB se atualizar e dá um bom negócio.

  17. Encostados e que sejam de interesse pra comprar (após modernização) que eu saiba só tem dois. O pacote oferecido, ao que tudo indica, vai além disso, e também inclui capacidade de manutenção etc, pois de nada adianta comprar e não ter como manter com as instalações de apoio que não estão a altura da tecnologia embarcada, como bem apresentou o comandante da BNA. Não deixaram escapar nada sobre preços individuais e de pacote, nem podem. Apenas deixaram claro que a oferta é muito competitiva com outras.

  18. O Brasil apenas é um BRINCALHÃO , sempre Brincando de Defesa , é só pensarmos um pouquinho serio , esta claro diante dos olhos até de Cego, se a oficialidade de Minagem e Varredura não fizer loby, serão esquecidos , esta claro que Defesa é BRINCADEIRA E PASSA TEMPO !!

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