pre-sal-dez2007

Carlos Tautz

Em breve, o governo apresenta o novo marco regulatório para explorar a camada pré-sal sem ter estimulado o debate público sobre as graves implicações de o Brasil se transformar em um dos maiores produtores mundiais de óleo. A história prova que integrar o grande jogo mundial do petróleo gera repercussões geopolíticas, militares e financeiras globais.

Porém, a informação de que petróleo e guerra necessariamente andam juntos está sendo escamoteada pelo discurso ufanista de que os recursos advindos da exploração do petróleo resolverão todos as injustiças sociais que marcam a trajetória do povo brasileiro. Falta a grandeza dos estadistas para tornar público o debate sobre os rumos que esta nação deseja para si. A mobilização em torno da institucionalidade do pré-sal seria um ótimo momento para fazê-lo.

Explorar estas reservas, que podem chegar à onírica marca dos 100 bilhões de baris de óleo de excelente qualidade, não vai apenas garantir o ingresso de centenas de bilhões de dólares para o Estado brasileiro. Petróleo não é uma mercadoria como outra qualquer. Fundamentalmente, ele é o principal energético utilizado no mundo e tudo que o envolve impacta as finanças internacionais, podendo gerar crises de resultados imprevisíveis.

A exploração desta riqueza nos dará a responsabilidade de integrar o reduzido grupo de nações que definem os rumos de toda a humanidade. Teremos bônus e ônus decorrentes da condição de grande jogador e precisamos ter ciência e consciência do que isto representa. Mas, quantas pessoas sabem disso?

Ter reservas extraordinárias de petróleo e exportá-las mundo afora exige vontade de Nação de usar capacidade militar para garantir os canais de comercialização do óleo em qualquer parte do mundo. Frequentemente estaremos em guerra e seremos convocados a intervir com força sempre que nosso petróleo estiver ameaçado.

Essa é a lógica desse setor, estimulada inclusive porque as indústrias militar e de petróleo são interconectadas. Fazer guerra para garantir o óleo dá um enorme ganho de escala ao seleto grupo de empresas como a estadunidense Halliburton, que lucram em ambos os lados do problema e chegam a influenciar eleições presidenciais.

A defesa e a exploração da pré-sal, além da exportação em larga de óleo, abre espaço para que alguém reivindique a adoção pelo Brasil de capacidade atômica para dissuadir outros atores internacionais interessados em projetar o seu próprio poder sobre nossas reservas, meios de transporte e armazenamento de petróleo (cerca de 2/3 do petróleo brasileiro já são armazenadas nos navios da Petrobras, o que coloca a suscita o desenvolvimento de submarinos atômicos).

Seguindo a lógica do petróleo&guerra, teríamos até de modificar a Constituição para permitir a adoção do poder atômico militar pelo País.Eventualmente, mesmo a ratificação do Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas seria questionada.

É isso o que realmente desejamos?

Só para se ter uma idéia do terreno que estamos adentrando. Nos anos 1980, os EUA pressionaram legal e também ilegalmente os grandes em níveis baixos os preços do produto. O objetivo era enfraquecer economicamente a então União Soviética, que tinha na exportação de gás natural e petróleo sua maior fonte de divisas internacionais, e que a duras penas conseguia até aquele momento rivalizar militarmente com os americanos.

Com os preços mantidos artificialmente em baixa durante anos, devido à grande disponibilidade no mercado internacional, o ingresso de moedas fortes para os soviéticos caiu e, com ele, a própria URSS se desmanchou em 1991.

Além do aumento das emissões de gases causadores do Efeito Estufa (uma contradição com a aposta no etanol) a discussão sobre a dimensão militar da pré-sal é tão difícil quanto urgente. O Brasil está às vésperas de tomar decisões que terão impacto sobre a atual e as futuras gerações de brasileiros, mas nenhuma instituição se dispõe à trabalhosa e inadiável tarefa de ouvir o povo brasileiro.

Carlos Tautz é jornalista

FONTE: Blog do Noblat

NOTA DO BLOG: Como diz o ditado, “quem está na chuva é pra se molhar”. Não sabemos o que quis dizer exatamente o colega jornalista com relação à dimensão militar do Pré-Sal, mas se o povo brasileiro for consultado, certamente não será a favor do sucateamento das Forças Armadas brasileiras.

Para ser um grande jogador no cenário internacional, o Brasil precisa aumentar o seu poder de dissuasão e não o contrário.

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Hornet

Nunão, sem querer ser chato (e talvez já sendo ao continuar com o assunto), existem ótimos jornalistas no Brasil. Eu conheço e leio vários deles. Gente séria, culta, intelectualmente honesta e tudo isso. Pena que nenhum deles, ou muito poucos, estão hoje nos grandes veículos de comunicação do Brasil, seja impresso, rádio ou TV. O caminho que esse pessoal trilhou, até para poder manter sua integridade intelectual e ética, foram os espaços “alternativos” (não gosto muito deste termo, mas enfim). Espaços como internet, TVs não comerciais (ou não abertas), revistas especializadas, blogs etc. Isso vale tanto para o jornalismo esportivo,… Read more »

Rodrigo

Falou o disse… O que a sociedade brasileira precisava agora é de um bom susto… Uma ameaça interna para que as pessoas se sintam indefesas e pensam sobre a necessidade de forças armadas preparadas. É importante lembrar que se uma parcela for retira do petróleo para as forças armadas e essas se equiparem com material e tecnologia produzidos no Brasil estaremos ampliando o crescimento da nação. O mais importante é fazer este dinheiro girar na economia isso vai gerar distribuição de renda. Se o governo investir pequenos percentuais do lucro em segmentos como saúde, educação e defesa não tenho dúvida… Read more »

Nunão

“Roberto CR em 26 Ago, 2009 às 20:42 O Anima Mundi já começou e eu tô perdendo?” Roberto, sinto lhe informar que não só começou, mas também acabou. Há mais ou menos um mês… Hornet, Há muitos e muitos jornalistas com espírito crítico na nossa imprensa sim, e conheço alguns bons exemplos desde a época da faculdade. Mas há uma quantidade significativa de gente que “se acha” e escreve muita besteira, e há polarizações no cenário político (que vão explodir pra valer no ano que vem) que infelizmente que privilegiam o aspecto propagandístico no jornalismo, em qualquer um dos “lados”.… Read more »

latino

BOM realmente precisamos de uma MARINHA forte
ja que sera ela quem cuidara da segurança e defesa do pre sal

nada mais justo que destinar verbas provenientes da venda do pre sal ..assim como faz o CHILE com o cobre

sds

Azul&branco

Depois que LuLA virou colunista, qualquer “jornalista’ é agora o sabichão em questões politico-militares e não se envergonham nem um pouquinho das sandices que escrevem. Discurso populista,socialismo e autocracia perseguem países com grandes reservas e fracos em suas instituições. Consequentemente os levam à guerra. É só ver o que está se passando no Brasil: ataques ao STF, palhaçadas e maracutaias no senado, turbas invadindo votações no congresso expurgos e aparelhamento no funcionalismo, atentados ao pacto federativo. Agora, para completar a “baRburdia” vem um cretino deste propor armamentos nucleares, rasgando tratado assinado. Para ficar igualzinho ao IRAN só vai faltar converte… Read more »

Nunão

“Porém, a informação de que petróleo e guerra necessariamente andam juntos está sendo escamoteada pelo discurso ufanista de que os recursos advindos da exploração do petróleo resolverão todos as injustiças sociais que marcam a trajetória do povo brasileiro.” Ah, então tá, vamos deixar o petróleo lá embaixo mesmo, pra não mexer em vespeiro… Mas que eu concordo que há um discurso do tipo “seus problemas acabaram, chegou o pré-salvator tabajara”, isso eu concordo. “Seguindo a lógica do petróleo&guerra, teríamos até de modificar a Constituição para permitir a adoção do poder atômico militar pelo País.Eventualmente, mesmo a ratificação do Tratado de… Read more »

Patriota

Acho que com tanto petroleo poderemos custear e até mesmo acelerar
o END , pelo visto teremos dinheiro para comprar novas escoltas para a MB e atingir a meta de 120 caças para a FAB.

Hornet

Nunão,

concordo contigo: o escorregão no piso oleoso foi grande…hehehe

Será que é impressão minha ou a grande maioria dos articulistas dos jornais da grande imprensa não tem a menor noção do que falam?!!! Vai saber, né?

abração

Nunão

Hornet, A moda pelo jeito é misturar coisas que não se misturam, como água e óleo, e entregar um texto que não se sustenta quando sobmetido uma análise ligeiramente mais criteriosa, mas que diz exatamente coisas que parte do público quer ouvir para formar opiniões digamos, já formadas… Mas, como disse, concordo (no sentido sebastianístico…) com o que o autor colocou sobre a venda que se faz, para a sociedade, do pré-sal como salvação para todos os males. Até em propaganda de patrocinador do Anima Mundi tava lá o comercial da Petrobras louvando essa descoberta num sentido de salvação dos… Read more »

Roberto CR

Hornet em 26 Ago, 2009 às 19:12
“Será que é impressão minha ou a grande maioria dos articulistas dos jornais da grande imprensa não tem a menor noção do que falam?!!! Vai saber, né?”

Ai,ai,ai,ai,ai,ai… entendo a ironia, mas não dá pra supor tamanha falta de senso… aja antiácido… rsrsrs.

Nunão em 26 Ago, 2009 às 19:48
O Anima Mundi já começou e eu tô perdendo?

Abs

URUTAU

Boa Noite Senhores

creio eu que o Brasil não tem e nem mesmo deseja ou almeja entrar para este restrito clubinho atomico mas não resta ou não ha de persistir duvida alguma quanto ao reaparelhamento das Fas com o que houver de melhor e logicamente for viavel a niveis operacionais
pacifico sim mas covarde …….. nuncaaaaaaaaaaaaaaaaaa
queremos a paz duradoura entre as nações não queremos as mazelas da guerra mas não nos furtamos ao direito de defende nossa nação nosso territorio e nosso povo

SDS s novamente Boa Noite Senhores

Hornet

Nunão,

concordo também com a venda da idéia dos “seus problemas se acabaram, vem aí o pré-sal”.

o problema é que, em grande parte, é a própria imprensa que embarca nessa, que vende essa idéia, que faz circular essa idéia e de forma acrítica. Se bem que pedir espírito crítico por parte a atual imprensa brasileira talvez seja pedir demais….nem Dom Sebastião dá jeito nisso….hehehe

Quanto aos alhos com bugalhos…é prática corrente na imprensa brasileira. Infelizmente.

abração