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Marinha Sul-Africana admite limitações de suas fragatas e submarinos

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SAS Amatolam, MEKO A-200SAN da Marinha Sul-Africana
SAS Amatolam, MEKO A-200SAN da Marinha Sul-Africana

Por Roberto Lopes
Especial para o Poder Naval

Ao discursar durante a cerimônia de inauguração da Conferência Sul-Africana de Segurança Marítima, realizada quinta-feira da semana passada (31.05) na Cidade do Cabo, o Comandante da Marinha da África do Sul, vice-almirante Mosiwa Samuel Hlongwane, recomendou que a sua Força reveja as estratégias de aquisição de meios do passado, para colher “de forma inteligente” as lições que vão ajudá-la a se reequipar no futuro.

Na África do Sul, a verba reservada aos gastos com Defesa sofreu, este ano, um corte de 455,76 milhões de dólares (equivalentes a 5,8 bilhões de Rands). A Força Naval enfrenta, em decorrência disso e de outras circunstâncias, um grave déficit orçamentário.

Mesmo assim a corporação obteve dinheiro para a aquisição de uma nova embarcação de pesquisa hidrográfica (Projeto Hotel) e três novos navios de patrulha costeira (Projeto Biro).

O artifício usado para garantir tais aquisições consistiu em vincular essas encomendas aos objetivos mais amplos da chamada Operação Phakisa, destinada a acelerar o aproveitamento dos recursos marítimos e, dessa forma, assegurar o desenvolvimento da Economia Oceânica.

“Precisamos analisar cuidadosamente as futuras oportunidades dessa natureza”, observou Hlongwane, “oportunidades que apoiarão as iniciativas econômicas do governo e, assim, atrairão os fundos e iniciativas necessários para apoiar o programa militar e de Defesa”.

Logística insuficiente – Mas Hlongwane advertiu que seus oficiais devem comparar as diferentes filosofias de aquisição de meios e aprender com o que foi feito no passado.

Ele se referia, especificamente, aos chamados “Pacotes Estratégicos de Defesa de 1999”, que possibilitaram à Armada obter quatro fragatas Meko A200 e três submarinos Tipo 209 – todos de procedência alemã.

As fragatas, explicou Hlongwane, “foram construídas na Alemanha com um design completamente único e revolucionário, incorporando tecnologia sofisticada de propulsão a jato de água… mais da metade das suas suítes de combate foi desenvolvida e construída na África do Sul”, lembrou o oficial.

No entanto, a Marinha da África do Sul acabaria por ter que reconhecer que houve problemas com essas encomendas – questões que podem ser resumidas em apoio logístico inadequado.

De acordo com o almirante Hlongwane, a Força negligenciou a capacidade de reaparelhamento dos submarinos. Não foram adquiridas ferramentas, gabaritos, ou mesmo muito conhecimento ou perícia técnica para modernizar os submersíveis.

O Comandante da Marinha Sul-Africana admitiu: isso foi “decepcionante”, pois eles haviam remodelado com sucesso os submarinos da classe (francesa) Daphne, recebidos pelos sul-africanos na década de 1970.

“Agora”, acrescentou o almirante, “esses lindos Type 209 têm apoio logístico limitado”.

Submarino Type 209 da África do Sul
Submarino Type 209 da África do Sul

Até mesmo as fragatas foram adquiridas com apoio logístico muito limitada, incluindo peças de reposição e treinamento.

Hlongwane disse que seus oficiais optaram por deixar para o futuro o financiamento de mais apoio logístico, sobressalentes, equipamentos de suporte e quantidades adicionais de treinamento.

O problema é que o orçamento operacional da Força diminuiu, e tudo o que foi deixado para depois recebeu o impacto dessa falta de prioridade. A capacidade de apoiar os navios contratados, por exemplo, foi severamente reduzida.

A Marinha da África do Sul perdeu parte do pequeno número de militares treinados para dar manutenção nos navios, enquanto a indústria foi pelo mesmo caminho, e pôde só assistir as demissões solicitadas por muitos dos especialistas originalmente envolvidos na produção das suítes de combate.

Embora alguns fundos suplementares tenham sido integrados ao orçamento operacional, com o objetivo de comprar mais logística para os barcos alemães, essa verba vem sendo compartilhada com as necessidades geradas pela introdução, na frota sul-africana, de novas plataformas marítimas sofisticadas.

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Mauricio Veiga
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Efeito Copa do Mundo, valeu FIFA, a história se repete!!!

Camargoer
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Camargoer

Caro Mauricio. Em 90 foi na Italia, em 94 EUA, em 98 França, em 2002 Japão/Coreia, em 2006 Alemanha, em 2010 África do Sul, em 2014 Brasil. Não consta que Itália, EUA, França, Japão, Coreia tenham tido problemas na área de defesa depois das copas. Este ano será a copa será na Russia e também não parece que eles terão problemas desse tipo. A conclusão é que não há relação estatística entre os cortes na defesa e a realização de copa do mundo. Aliás, a Argentina realizou uma copa em 78 e esta com problemas na defesa. Espanha fez em… Read more »

Mauricio Veiga
Visitante

Caro amigo, Brasil e África do Sul foram vítimas da corrupção endêmica e superfaturamento associado as aventuras da FIFA e isso afetou e continua afetando diretamente o orçamento da área de defesa em ambos os países, abraço!

Aerokicker
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Aerokicker

Não vejo relação com Copa do Mundo ou coisa do tipo, o problema aí foi um erro primário de falta de planejamento da vida útil do navio.

Sem planejamento, nada flui mesmo. Igual o Brasil, não fez planejamento para manter a indústria de submarinos 209 ativa depois do Tikuna e agora não pode ganhar uns trocados dando manutenção nos meios da África do Sul e da América Latina. E agora estamos gastando o que não temos para readquirir esse conhecimento com os Scorpéne.

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
Famed Member

“Igual o Brasil, não fez planejamento para manter a indústria de submarinos 209 ativa depois do Tikuna e agora não pode ganhar uns trocados dando manutenção nos meios da África do Sul e da América Latina.”

Planejamento houve. Mas o governo não liberou a verba para a continuidade do programa com projetos nacionais de submarinos, ao longo da década de 1990, até que a única solução foi voltar ao financiamento externo, e veio o Prosub.

Alex Nogueira
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Alex Nogueira

Má gestão de recursos, roubos (corrupção), Estado inchado, governos autoritários com sede de poder eterno, “problemas” sociais que nunca são resolvidos, população carente que nunca deixa de ser carente, não importa o tipo de assistencialismo que receba, falta de compromisso em ter um Estado eficiente como um todo, alta de compromisso com a defesa de modo geral, violência, etc.

Acho que esses são alguns dos motivos que fazem com que alguns países estejam sempre na mesma, ou piorando de situação, nós vemos esse filme todo dia.

Roberto Dias
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Roberto Dias

Não sei se estou certo, mas parece que nesse ponto de vista a Fab acertou em cheio.

Gustavo
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Gustavo

mais uma marinha tendo problema para manter os 209 operacionais…

Rafael Oliveira
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Rafael Oliveira

Até a Alemanha tem dificuldade para manutenir e operar equipamentos alemães, em especial os submarinos. Não é para qualquer um, muito menos para a África do Sul.
Por isso é bom por os pés no chão antes de comprar equipamentos europeus de 1ª linha.

Juarez
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Juarez

Noticias como esta mostram que o “mantra” manter e operar, que eu repito insistentemente para vocês aqui está em alta.
O tempo, age por si só e mostra a realidade.

Cronauer
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Cronauer

Verdade! É uma máxima aplicável em tudo na vida. Reina absoluta! rsrsrsrs Na “corte” da Defesa e Segurança então…

Augusto
Visitante
Augusto

Sempre defendi que a Marinha do Brasil foi muito feliz em escolher os Scorpene e agora, sobretudo com as matérias recentes sobre o estado do PROSUB, vai ficando evidente o enorme salto tecnológico que demos, além de termos reduzido em parte a dependência da logística do fabricante.

Já os submarinos da Alemanha… nem os próprios alemães estão conseguindo manter, imagine os compradores externos!

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
Famed Member

Augusto,
Quem não está conseguindo manter os submarinos de origem alemã é por motivos específicos de alocação de verbas (incluindo a própria Alemanha). Não é um problema com o submarino em si, pois se fosse francês, russo etc, sem verbas adequadas o problema seria o mesmo. Submarinos (e navios de guerra em geral) são caros de obter e manter, independentemente da origem (alguns mais, outros menos).

Augusto
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Augusto

Nunão, mas a questão é essa mesma: falta de recursos alocados. Se nem a Alemanha consegue manter (e a questão não é escolha política somente), já dá para suspeitar da ‘módica’ quantia que deve demandar a manutenção de um submarino desses. Não consta que Chile tenha esse problema. Imagine o Brasil com algum índice de nacionalização, então. Só ficaria na mão pela notória irresponsabilidade dos gestores públicos.

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
Famed Member

Augusto,
Os IKL 209 da África do Sul são similares ao Tikuna, que por sua vez é uma versão ligeiramente mais moderna que a classe Tupi, cujo líder da classe vai completar ano que vem 30 anos de incorporação à MB, marinha que é atormentada há décadas com recursos inconstantes.

Não consta que foram mais caros de operar do que seriam submarinos de outras procedências.

O Chile opera tanto Scorpene quanto IKL-209, ou seja, a procedência não é o problema.

Marcelo
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Marcelo

As Tamandares terao a mesma capacidade dessas A200 sul africanas?

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
Famed Member

Não, Marcelo, a capacidade desses navios sul-africanos é superior devido ao maior porte, então têm mais capacidade no sentido de mais espaço para silos e conteineres de mísseis, mais espaço para paióis de munição, para tanques de combustíveis etc. Quanto a capacidade de cumprir a missão, a classe Tamandaré será capaz de cumprir as mesmas missões AAW, ASW e ASuW, porém com menos velocidade, alcance e quantidade de munição devido ao menor porte (e também, caso o radar de busca seja posicionado abaixo do que é possível no caso da fragata sul-africana, que pelo maior porte pode ter mastros mais… Read more »