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Relembre a entrevista com um comandante de submarino da Marinha do Brasil

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Submarino Tonelero – S21, da classe Oberon

Há cerca de 20 anos o Poder Naval Online entrevistou, por meio do colaborador Bruno Fagundes, um comandante de submarino da classe “Oberon” da Marinha do Brasil, mas na época não pudemos publicar o conteúdo da mesma, por algumas questões sigilosas.
Em 2009 divulgamos pela primeira vez o conteúdo da entrevista exclusiva, mas sem revelar o nome do oficial e omitindo alguns detalhes. Hoje o comandante está na reserva e longe dos submarinos.

PN – Na sua opinião, por que o submarino “Humaitá” e o “Riachuelo” foram desativados, se esses submarinos operaram bem menos tempo na MB, quando comparados com os “Guppy”?

Comandante – A desativação do “Humaitá” e do “Riachuelo” foi uma decisão da MB em investir maciçamente nos submarinos da classe “Tupi”, que são unidades construídas do Brasil e que nós detemos a tecnologia de construção. Ao invés de investir em reparos muito caros no “Humaitá” e no “Riachuelo”, a MB preferiu destinar os recursos para os submarinos da classe “Tupi”. Se nós fossemos uma marinha um pouco mais rica, com certeza esses navios ainda estariam em operação porque são excelentes plataformas.

PN – Em termos operativos, quais as principais desvantagens do “Oberon” em comparação às classes mais modernas de submarinos convencionais?

Comandante – O “Oberon” é uma excelente plataforma para detecção mas como é um submarino de concepção mais antiga e bem grande, tem uma dificuldade de manobra mergulhado muito maior do que os submarinos mais modernos. A relação dele em guinada, ou seja, a rapidez com que ele muda de rumo ou profundidade é bem menor do que submarinos como os “Tupi” que são muito mais rápidos.

PN – Na sua opinião, se os argentinos tivessem submarinos da classe “Oberon” na guerra das Malvinas, armados com torpedos “Tigerfish”, ao invés de submarinos Type 209 com torpedos SUT, eles teriam obtido melhores resultados, ou seja, teriam conseguido acertar algum navio britânico?

Comandante – Os argentinos, nas Malvinas, estavam apenas com um submarino no mar. E esse submarino colocou os ingleses tão preocupados que antes deles chegarem propriamente nas Malvinas já haviam gasto toda a dotação de torpedos anti-submarino no mar. Qualquer contato obtido era atacado, mesmo sendo falso.
Qualquer submarino no mar é uma ameaça terrível porque o adversário não sabe onde ele está. O marinheiro de superfície ficará sempre achando que o submarino está próximo, pois não sabe em que momento haverá o ataque.
Com certeza os submarinos “Oberon” dotados com os MK-24 Tigerfish teriam tido maior possibilidade de acerto. O nosso sistema de detecção e direção de tiro é melhor do que os dos argentinos naquela época.

Submarino Humaitá – S20, da classe Oberon

PN – O senhor já fez algum exercício “Sub versus Sub” com algum submarino nuclear americano? O que senhor pode dizer desse tipo de exercício? Em quais situações o submarino convencional leva vantagem?

Comandante – Eu já fiz um curso de comando de submarinos na Inglaterra chamado Perisher, em 19… Durante o curso, fiz dois embarques, um de … dias, num submarino da classe “Upholder”, e outro de … dias mergulhados, num submarino  da classe “Walrus” da Holanda. Nas duas vezes nós fizemos exercícios sub x sub com os submarinos nucleares americanos, sendo que nas duas vezes estávamos equipados com towed array.
A detecção do submarino convencional em relação ao nuclear, hoje em dia, não existe tanta diferença. A idéia de que os submarinos nucleares americanos são mais barulhentos do que os submarinos convencionais é um pouco ultrapassada. A tecnologia hoje é o que tem de melhor.
As distâncias de detecção sempre foram muito pequenas. Normalmente nesse tipo de exercício, para evitar que uma nação grave as características reais dos submarinos da outra, existe um equipamento chamado HIDROSOUNDER que gera uma freqüência para mascarar a real freqüência do submarino. No início do exercício é possível escolher diversos níveis dependendo do adestramento das tripulações. O exercício é conduzido mais ou menos desta forma e as distâncias de detecção realmente são pequenas.
Hoje, o submarino convencional talvez tenha 10% a mais de silêncio do que o submarino de ataque americano, o que não chega a ser uma grande vantagem.

PN – Quais foram os submarinos nucleares contra os quais o senhor combateu ?

Comandante – Um deles era um classe “Sturgeon” e o outro era um submarino “Improved Los Angeles”.

PN – O senhor gostaria de fazer algum comentário a respeito dos últimos treinamentos da MB com a US Navy ?

Comandante – Normalmente esses treinamentos são feitos uma vez ao ano, na UNITAS. É um exercício grande que envolve uma força tarefa americana. São exercícios sempre muito bons, tanto para nós como para eles. Para nós é importante porque é uma oportunidade para a MB operar com uma marinha de primeiro mundo. Para eles também é importante para que aprendam a respeitar a nossa marinha, que não fica devendo nada a respeito de adestramento no mar. Talvez em material sim, mas em adestramento e prontidão não ficamos nada a dever.

Submarino nuclear USS Snook da Marinha dos EUA visitando o Rio de Janeiro durante uma operação UNITAS

PN – Qual é a plataforma de guerra anti-submarino que o comandante de submarino tem mais medo de enfrentar?

Comandante – Não existe uma plataforma. A força procura otimizar os seus meios. Ela usa como piquete os seus melhores sonares, ou seja, sonares com maiores distâncias de detecção ou equipados com towed array.
Os americanos costumam colocar as suas melhores fragatas bem à vante da força, fazendo a varredura sonar. No caso do Brasil, nós pegamos os melhores sonares e colocamos. É o caso dos navios da classe “Pará” com seus sonares de longa distância.
Então, não existe uma plataforma. O submarino vai enfrentado desafios a medida que se aproxima da força tarefa. Mas no momento em que um navio tem um contato, o que se torna a maior ameaça para o submarino é o helicóptero, vetorado por esses navios. É uma arma de excelente alcance e o submarino não tem como detectá-lo. Por vezes o submarino se assusta com um torpedo correndo na água ao seu lado. O sonar só detecta o helicóptero quando ele está exatamente on top, em cima do submarino, lançando o seu armamento, e não há como contra atacá-lo. Contra um navio de superfície é possível lançar um torpedo para colocá-lo na defensiva enquanto o submarino foge.

PN – O senhor vê alguma viabilidade tática na utilização de SAM em submarinos, como estão fazendo os russos na classe “Kilo”?

Comandante – Não, nenhuma, pois quando o submarino for lançar o míssil estará se expondo e toda a vantagem será do helicóptero. O submarino é uma excelente arma até ser detectado. No momento em que é detectado passa a ser uma presa sem muita capacidade de correr. Os equipamentos de detecção hoje conseguem fazer um acompanhamento muito bom. O submarino tem que ficar sempre na iniciativa. Ficar na defensiva é a pior coisa que existe para um submarinista.

PN – A partir de que distância em média um submarino detecta uma força de superfície?

Comandante – A detecção de uma força de superfície acontece de várias formas. Depende basicamente das condições de propagação do som na água. Se a água estiver muito fria ela se torna mais densa e o alcance de detecção fica muito reduzido. O submarino nessas condições detectará mais tarde a força, porém correrá menos riscos de ser detectado. Se as condições de propagação estiverem muito boas o submarino detectará a força muito longe mas também corre o risco de ser detectado em maiores distâncias.
Os navios, ao transitarem com uma ameaça submarina, devem estar emitindo com seus sonares ativos. E o submarino nunca emite, só escuta. A energia do som que é emitida por esses sonares, a fim de conseguir o retorno de um submarino, tem de ir e voltar. Enquanto isso, o submarino detecta a emissão enquanto ela está indo, o que dá ao submarino no mínimo o dobro da capacidade de detecção.
Cabe ao comandante determinar que risco ele está propenso a assumir, até que distância ele pode chegar perto da força para lançar o torpedo. Hoje os torpedos já podem ser lançados bem mais longe, permitem um alcance muito maior e cabe muito à ousadia do comandante de que forma se dará a aproximação final para o disparo.

PN – A habilidade de um comandante de um submarino hoje em dia conta tanto quanto nos tempos da WWII ou a sofistificação dos sistemas de detecção podem fazer qualquer comandante mediano tão bom quanto um comandante experiente?

Comandante – O comandante é a vida do submarino. Só ele vê o alvo, só ele interpreta e só ele diz o que será feito. Em nenhuma outra organização militar ou civil existe uma dependência tão grande de um homem para o sucesso da missão. A equipe trabalha para apoiá-lo e todas as decisões são dele. Ele faz os cálculos azimutais, toma as decisões e informa para a equipe.
A habilidade num comandante de submarinos é fundamental. A habilidade e a prática no mar são fundamentais para o sucesso. O comandante que não for ousado, que não souber profundamente interpretar o que está acontecendo a sua volta não será um bom comandante de submarinos. Existia um almirante russo que dizia o seguinte: “o homem que a bordo do submarino não entender em 1 minuto o que esta acontecendo não deve ser submarinista”.

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PN – Como se dá a formação de um comandante de submarinos no Brasil?

Comandante – Nós procuramos mandar oficiais para o exterior para fazer cursos. O curso mais conceituado do mundo era o Perisher, da Royal Navy. Perisher vem do verbo to perish, que quer dizer perecível, o que está estragando. Os oficiais são submetidos a tal pressão que ou passam ou são mandados embora. Existe uma pressão muito grande durante todo o curso. Os aprovados são chamados de “comandantes de 1 milhão de libras” porque o custo gira em torno de 1 milhão de libras por aluno.
Desde 1984, quando o primeiro brasileiro cursou o Perisher, nós montamos o nosso curso aqui, que já existia mas não naqueles moldes. Hoje, então, nós temos um curso chamado “Estágio para qualificação de futuros comandantes” onde os oficiais que poderão ser indicados para o comando de submarinos estudam. O curso tem duração de oito semanas e é feito na força de submarinos. Na verdade, é um curso entre aspas porque nele não há que ensinar muita coisa. É feito ou num treinador de ataque ou no mar, sendo que o aluno é testado até os limites de sua habilidade. Os que conseguem lograr sucesso terão a chance de comandar submarinos.

PN – Quantos lançamentos de torpedo um comandante de submarino brasileiro faz em sua carreira? Quantos lançamentos o senhor já fez?

Comandante – Não existe uma regra que diga quantos lançamentos serão feitos. Apertar o botão e o torpedo sair é só um detalhe. Cada exercício que nós fazemos, qualquer um, é levado a sério, como se fosse uma situação de querra. Assim é feito para que quando estivermos em uma situação de conflito diferença alguma exista entre a situação de paz e a de guerra.
Todas as vezes que o submarino vai para o mar fazer qualquer tipo de exercício a sua equipe de ataque e a sua tripulação estarão fazendo o que é feito normalmente para o lançamento de um torpedo. O lançamento será feito ou não, dependendo da disponibilidade da arma.
O lançamento de torpedo é um exercício que não é muito caro. A bateria do torpedo é ativada e tem duração para dez lançamentos, por exemplo. O único problema que se tem é a possibilidade de se perder o torpedo. O nosso torpedo, ao final da corrida, expulsa o lastro da cabeça, que ao invés de estar com explosivo está cheia d’água, e acaba flutuando. Ao flutuar é recolhido por uma embarcação própia, levado para o nosso centro de armas e preparado para um novo lançamento.
É um exercício que ocorre com freqüência. Este ano eu já fiz vários e, inclusive, na próxima semana vou lançar novamente um torpedo, um MK-37.

Torpedo Tigerfish Mk.24

PN – É verdadeiro aquele episódio em que o submarino “Humaitá” foi quase atingido por um torpedo “Tigerfish” durante um lançamento? A estória que se conta é que o cabo de guiagem se rompeu e o submarino teve que pousar no leito marinho para escapar do torpedo…

Comandante – O episódio é verdadeiro. O torpedo foi lançado, adquiriu a superfície e o comandante do submarino continuou navegando em direção a ele. Como estava na cota periscópica acabou sendo atingido na vela, mas não houve explosão pois o torpedo não estava carregado com explosivos.

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EstevesCamargoerGFC_RJ Recent comment authors
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Aula!

Camargoer
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Camargoer

Olá Colegas. Com as devidas aproximações, dá para entender as decisões da MB em priorizar o Scorpene em relação aos Tupis.

Esteves
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Esteves

Não fosse o reator estariam prontos. As Tamandarés também.

Esteves
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Esteves

Boa. Muito. Melhor que a outra recente.

Submarino é arma de guerra de uma Marinha de Guerra. Vem de um programa de capacitação. É um esforço de bravos.

Tomar conta de praia e dar voltinhas em torno de plataformas de petróleo, deixa pra mídia mostrar.