Home História Naval Os ‘cacinhas’. Nomes e histórias para não esquecer

Os ‘cacinhas’. Nomes e histórias para não esquecer

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Caça-Submarino (Caça-Pau) Juruá, J3, classe SC497

“As milhas vão sendo devoradas. Tudo que aconteça é novidade bem-vinda para quebrar o ramerrão. Um holofote do capitânia que pisque é sempre uma esperança – mesmo quando avisa que há submarinos postados no caminho do comboio. Mas caça-submarinos são navios de gente moça, alegre e irreverente.

E a alegria e a irreverência deles vieram fazer caretas à antiga sisudez das comunicações navais. Conversa-se amigavelmente pelos pisca-piscas. Conta-se fatos. Caçoa-se. Cumprimenta-se. Os códigos de radiofonia devem utilizar palavras que bastante se afastem de sua real significação. E daí surgem diálogos surpreendentes.

Um comandante de escolta certa vez (normalmente há um código para cada comboio) denominou a escolta de retreta, o comboio de auditório, o comandante da escolta de maestro e os diversos navios com nomes de instrumentos. Havia o pandeiro, o cuíca, o chocalho, o reco-reco, o trombone, etc. Além disso, um mercante seria mau elemento, avaria, lilica, corveta, rapaz, cruzador, feioso, caça-ferro, beleza (é claro que ele era comandante de um caça-ferro).

Chamava-se penetra um navio suspeito, investigar um contato, pegar um abacaxi, atacar com bombas, sambar, regressar ao comboio, dar despesa, e estação de rádio, fogão. E podia-se ouvir, não só a orquestra, mas todo o Atlântico, mensagens como esta: “Maestro de Chocalho – estou com lilica no fogão”, ou “Tamborim de Reco-Reco – fui pegar um abacaxi, sambei e já dei despesa”. Difícil para os alemães, se escutavam, compreenderem…”

Caça Submarino (Caça-Ferro) Graúna – G 8

“Movimentos bruscos largam as bombas. Sentem-se baques surdos e um estremecimento percorre o navio, a cada uma que explode. Pela popa, gêiseres de espuma erguem-se enormes, fosforescentes, como montanhas luminosas.

O cacinha faz um giro lento e 20 pares de olhos devoram a escuridão. Súbito, alguém parece ver um vulto que se delineia na sombra. Brada. Impressão ou realidade, todos distinguem-no imediatamente. O ratatá das metralhadoras matraqueia, brilhando os traçadores como um imenso fogo de artifício vermelho.

O canhão entra no coro, com sua voz de baixo. (…) Talvez um avião encontre na superfície, incapaz de imergir, uma presa que acabará de destruir. Talvez nada tenha acontecido. Mas o comboio passou. Pelo menos por esta noite e pelo dia seguinte este não lhe meterá medo. E o caça volta a procurar o seu cantinho na escolta.”

Trechos do capítulo “Os Cacinhas”, do livro Estórias Navais Brasileiras, de Helio Leoncio Martins e Antônio A. C. de Castro. Rio de Janeiro, SDGM, 1985.

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Esteves
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Esteves

Eita…que tinha que ter coragem pra embarcar um naviozinho desse e ir caçar submarino.

Alex Barreto Cypriano
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Alex Barreto Cypriano

O artigo não explica bem a diferença entre os caçinhas (pau e ferro). Os ferro, vieram oito dos estadunidenses (ou americanos, há controvérsias entre os especialistas…). Lá, PC-461 class, fabricados às centenas. E havia, igualmente, comunicações jocosas entre os yankees a bordo dos PC: ‘no, thanks, we’re already below periscope depth’.

Alex Barreto Cypriano
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Alex Barreto Cypriano

Fui olhar: vieram oito SC-497, também por lend-lease, lá parte dos mais de quatrocentos botes da splinter fleet, aqui caça-pau (ô nome feio…). Nunca um SC abateu um sub…

Dalton
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Dalton

Inicialmente Alex, apenas 2 “461” seriam entregues, porém com intervenção do Presidente Vargas e do Almirante Jonas Ingram, IV US Frota, outros 6 foram entregues.
.
Os “461” “Giants”, receberam nomes iniciados com a letra “G”, os “caça ferro” eram maiores e melhor equipados que os “110” “Juniors” com nomes iniciados com a letra “J” , os “caça pau”, mesmo assim, o tamanho reduzido fica evidenciado quando comparo o modelo de escala 1:1250 que tenho com o modelo de mesmo escala de um contratorpedeiro de escolta classe “Cannon” dos quais a marinha brasileira recebeu 8 unidades.

Alex Barreto Cypriano
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Alex Barreto Cypriano

Os PC, 173 feet (lbp ou loa?…) que chega a ser chamado 173 footer; os SC, 110 feet. O arranjo interno dos PC461 era modesto (só se acessava a messe, à ré, pelo convés aberto, passando pelos Bofors 40mm – a sala de máquinas a meia nau e alojamentos à vante, abaixo do canhão de 3″). A superestrutura era pequena, os ambientes bem apertados. Algum dia, se Deus permitir, retraço os planos destes botes pra pôr na parede à guisa de decoração.

M65
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M65

Na segunda foto (do G8), salvo engano, ao fundo é a Fortaleza de Sta. Cruz em Niterói na entrada da Baía de Guanabara.

Roosevelt
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Roosevelt

Nos anos 80 o Juruá e o Javari ainda estavam no cais da Força de Minagem é Varredura da Base Naval de Aratu. Realmente pegar mar aberto com eles devia ser por demais assustador.

Enes
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Enes

Não para marinheiros.

Cristiano de Aquino Campos
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Cristiano de Aquino Campos

Mais uma história maravilhosa que não conheciamos.

Fernando XO
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Fernando XO

Para quem ficou interessado no tema, recomendo a leitura de “A bordo do Contratorpedeiro Barbacena”… embora seja uma ficção, faz uso de vários episódios reais ocorridos durante a II GM para costurar o roteiro… abraço a todos…

Roosevelt
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Roosevelt

Não há mais em estoque na Engepron, uma pena.

Roosevelt
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Roosevelt

Aliás o Fernando tem mais alguma sugestão desse tema da guerra no nordeste?

Otto Lima
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Embarcar em um caça-pau para enfrentar subs alemães em alto mar realmente era coisa de “cabra macho”.

Dalton
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Dalton

As condições a bordo eram ruins especialmente nos “caça pau”, mas, felizmente não precisaram entrar em ação ao contrário por exemplo de seus equivalentes na US Navy, um dos quais o “699” atuando no Pacífico foi
atingido por um bombardeiro japonês avariado o que é considerado por muitos como o primeiro ataque “kamikaze” a um navio da US Navy.

Rodrigo Hemerly
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Eu sou historiador e quem tiver interesse em aprender mais sobre história é só acessar minha página eletrônica no seguinte endereço eletrônico, a saber: https://www.historiahumana.com.br. Atenciosamente Rodrigo Hemerly.